quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

LANDAYS: A VOZ SECRETA DAS MULHERES AFEGÃS

“Fomos esquecidas e precisamos ter o direito de falar.
Se ninguém escutar o que dissermos, nada mudará.”
(Mulheres de Cabul)

Maria das Vitórias de Lima Rocha, UEPB[1]

O Oriente sempre representou um mundo de sonho, riqueza, erotismo e fantasia para os povos do Ocidente. Inicialmente, por ser o lugar de onde vinham as especiarias, sedas, perfumes, tudo que o Ocidente consumia (e não produzia) com avidez e encantamento. A literatura foi a grande responsável pela disseminação dos costumes, lendas e tradições orientais. E nenhum outro livro despertou mais a curiosidade ocidental do que As mil e uma noites, também conhecido como Arabian Nights, uma coleção de contos que reúne cultura, aventura, e fantasia, hoje, definitivamente entronizado no panteão da literatura universal como um dos clássicos da humanidade. O fio condutor que dá unidade à narrativa provém da voz da princesa Xerazade, a filha do vizir. Este fio condutor é de origem indiana e chegou aos árabes através dos persas. Os contos que compõem a coletânea tem elementos diversos: árabes, persas e indostânicos. Embora de autoria desconhecida, supõe-se que tenha aparecido pela primeira vez em língua árabe no século VII. Em 1853 foi impressa na forma árabe definitiva. Entre 1704 e 1712 apareceu na Europa, na tradução francesa de Antoine Galland (Les Mille et une nuits). Na metade do século XIX foi publicada no Cairo uma versão que serviu de base para edições posteriores, inclusive a inglesa, Thousand and One Nights (1885-1888) de Sir Richard Burton. Sem finalidade moralizadora, religiosa ou didática, que predomina na literatura oriental, contém no seu cerne um elemento que perdura até os nossos dias: a xenofobia, o repúdio ao feminino, considerado traiçoeiro e subversivo, merecendo, portanto, as mais duras penas. Embora Xerazade sobreviva à ameaça de morte que pesa sobre sua cabeça, através de sua inteligência e criatividade, o mesmo não acontece com a maioria das mulheres que hoje ousam subverter a ordem estabelecida pelos textos corânicos e os editos que dali se originam. É isto que nos mostra a literatura contemporânea que nos chega dos países que adotam o islamismo de uma forma fundamentalista, como religião e modo de viver, dentre estes, o Afeganistão, objeto de nosso olhar neste trabalho.
Antes do 11 de setembro de 2001, o Afeganistão representava pouco mais do que um país escondido nas regiões montanhosas da Ásia Meridional, limitando-se com países como o Paquistão, o Irã, e a China, dentre outros.
Poucos sabem, por exemplo, que entre 2000 e 1500 A.C. aquele país já fazia parte da rota de passagem das tribos indo-européias; que do século V ao IV A.C. o Afeganistão fez parte do império persa; que em 329 A.C. Alexandre conquistou várias cidades que podem ter originado as que hoje são conhecidas como Kandahar e Cabul; que de 250 até 125 A.C. ali instalou-se um reinado culturalmente florescente, a afirmação de uma civilização greco-búdica, resultado de influências helênicas e indianas.  Os árabes conquistaram a região no século VII e encontraram alguma resistência à implantação do islamismo que será imposto definitivamente a partir da primeira metade do século VIII.  Ainda foi invadida pelos turcos e pelos mongóis. Com a descoberta do caminho marítimo para a Índia, a rota da seda deixou de ter a importância que tinha até então e desde aí o grupo étnico dos pachtu começou a ganhar ascendência sobre as outras etnias.
No século XIX, são os ingleses que ocupam a região, de (1830 a 1919), tendo que disputar a soberania sobre aquele vasto território com o Império Russo.
Em 1964 o Afeganistão adotou a sua constituição e estabeleceu o regime parlamentar. Desde 1970, vem enfrentando uma guerra civil contínua e brutal sempre com intervenções estrangeiras; em 1973, dando seqüência a uma grande crise econômica, um golpe militar é armado e a república é proclamada. Adota uma política de aproximação dos países muçulmanos, principalmente da Arábia Saudita, o que não agrada à União Soviética, que invade o país em 1979, tomando o controle das principais cidades. Os soviéticos são forçados a retirar-se 10 anos mais tarde e os mujahidins, que são supridos de armas e treinados pelos Estados Unidos, Arábia Saudita, Paquistão, China e outros países da região assumem o poder. Em 1996, o Taliban (milícia sunita de etnia patane, a mais numerosa do país) assume o poder, instaurando um regime fundamentalista islâmico. Depois do ataque às Torres Gêmeas, (World Trade Center) os Estados Unidos e as forças aliadas deram início a uma campanha militar que tem por objetivo dizimar os Talibans e o saudita Osama bin Laden, supostamente refugiado nas montanhas afegãs.
Este breve e lacunoso registro tem apenas o objetivo de chamar a atenção para o fato de que muita coisa aconteceu, muitas vidas foram sacrificadas no Afeganistão, antes dos atentados às Torres Gêmeas de New York em 11 de setembro de 2001. Mas, a partir de então, o ocidente foi forçado a voltar os olhos para aquele povo longínquo, assolado por invasões e guerras fratricidas, através da enxurrada de best-sellers que, de uma forma ou de outra, nos atualizou a respeito da tragédia permanente que tem sido o cotidiano do povo afegão, nos últimos 50 anos. Apenas para citar alguns desses best-sellers, selecionei os títulos que figuraram (alguns ainda figuram) nas nossas listas dos mais vendidos por semanas e meses consecutivos. Inicialmente, tivemos O livreiro de Cabul, da jornalista norueguesa Asne Seierstad, publicado originalmente em 2002, com edição brasileira de 2006. Na esteira deste livro, em 2002, veio Mulheres de Cabul, uma seleção de fotos e depoimentos sobre a vida das mulheres do Afeganistão, publicado no Brasil em 2006.  Em seguida tivemos O caçador de pipas de Khaled Hosseini, que arrancou lágrimas de multidões de leitores e, mais tarde, de cinéfilos enternecidos com o drama dos dois meninos pashtun e hazara, originalmente publicado em 2003 e, aqui no Brasil em 2006. Ainda de Khaled Hosseini, A cidade do sol, publicado no mesmo ano (2007) nos Estados Unidos e no Brasil, o que comprova a popularidade do autor e do gênero literário. Desta feita o foco é concentrado na opressão que sofrem as mulheres afegãs sob o regime dos Talibans.
Mais recentemente, Atiq Rahimi, escritor franco-afegão, foi premiado com o Goncourt em 2008 pela publicação do livro Syngué Sabour, lançado no Brasil em 2009, com o subtítulo Pedra-de-paciência. Rahimi declara que “esta narrativa foi escrita em memória de N.A. (Nadia Anjuman) – a poetisa afegã barbaramente assassinada por seu marido”. Este é o terceiro livro de Rahimi editado no Brasil. Sua narradora sem nome é uma antítese da princesa Xerazade: ao narrar sua história, ao invés de conquistar o direito de viver, é assassinada pelo marido, que estivera ferido, imóvel, semi-morto durante toda a sua narrativa. Tal qual um Lázaro, recobra a vida, mas “vinga-se” da mulher que o mantivera limpo e alimentado através de seus cuidados por longos dias, cujo pecado maior fora submetê-lo a ouvir sua história pessoal; ele que nunca se dignara a escutá-la, ouve um relato que a condena irremediavelmente, pelo que contém de verdadeiro e subversivo. Os dois primeiros livros de Rahimi aqui publicados são Terra e cinzas (2002), As mil casas do sonho e do terror (2003).
Podemos observar através desta pequena amostra o quanto as questões referentes ao Afeganistão passaram a figurar de forma proeminente no mercado editorial ocidental.
Last, but not least, um último livro (objeto deste estudo) A voz secreta das mulheres afegãs: o suicídio e o canto, do poeta afegão Sayd Bahodine Majrouh, que nos chega através da tradução inspirada da poetisa portuguesa Ana Hatherly. Foi originalmente publicado em francês em 1994 pela Gallimard e, em 2005, pela Editora Cavalo de Ferro de Lisboa. Bahodine coletou os poemas, nos vales pashtun, acompanhado pela sua irmã, conforme revelou a uma numerosa e ao mesmo tempo amistosa audiência, da qual fazia parte André Velter (2005, p.76).  Alguns destes poemas estão incluídos no pequeno volume de apenas 88 páginas, para a qual Bahodine também escreveu a introdução e os capítulos de apresentação às quatro partes que compõem este formoso livro.
Graduado em Universidades européias, ao voltar para seu país, ocupou vários cargos e funções: professor universitário, chefe de departamento, governador de província, embaixador, dentre outros. Era particularmente ligado na “violência da vida, nas dívidas de honra, nas vendettas e no calvário das mulheres” (VELTER, ibid). Pouco tempo após esse encontro de amigos, aos quais Bahodine apresentou os landays, deu-se o golpe de estado comunista que o forçou a se exilar em Peshawar, no Paquistão, onde foi assassinado, em 11 de fevereiro de 1988. Nas palavras emocionadas de Velter, Bahodine

“Morreu por ter falado abertamente. Morreu sobretudo por ter escutado
 e ter emprestado a sua voz aos sem-voz. Majrouh não se assemelhava
 em nada a um intelectual do antigo regime. Mais propenso a escutar
 as narrativas e os cantos de um nómada, de um pastor de uma camponesa,
 de um louco de Deus, que as perorações de um ministro ou de um teólogo,
 aplicava a sua erudição sem preconceito ao questionamento tácito da sua
 própria tradição” (ibid, p.81)           

Landay significa literalmente “o breve”. Um landay, Bahodine nos explica, (ibid, p. 12) é exatamente isso: um poema curto de dois versos livres de nove e treze sílabas, sem rimas, mas com escansões internas. É vocalizado de formas diferentes, dependendo da região de onde se origina e é usado para pontuar discussões, como um aforismo, um ditado. São inseparáveis do canto e têm grande ritmo melódico. Sendo curtos, são facilmente memorizados. Fazendo parte da tradição oral, são também anônimos.
Quanto ao conteúdo, não exaltam o amor místico nem o louvor a Deus. Também não contém referências ao efebo, objeto do amor homossexual. É mais um canto de amor terrestre, suas belezas, prazeres, alegrias; celebra a natureza, seus rios, cascatas, montanhas, vales, flores, o nascer e o por do sol e também a morte, a honra, a guerra, a vergonha.
O grande diferencial desta poesia é a presença ativa da mulher, não como na poesia lírica ocidental, desempenhando o papel de musa, mas como criadora ativa, como sujeito do seu canto.
Há também os landays eruditos compostos pelos clérigos e os letrados, mas esses raramente atingem a vitalidade dos landays femininos. O que emerge destes é um rosto, um corpo feminino que se rebela e debate contra a opressão constringente. É sabido que a estrutura tribal da comunidade pashtun é particularmente dura e virilizada. Dentro deste contexto, a mulher sofre duplamente: tanto física como moralmente.
Sua carga doméstica é particularmente pesada, trabalha de manhã á noite, vai buscar água na fonte ou no rio, cuida dos filhos, cozinha, cuida dos animais, cose a roupa da família, irriga as culturas, mas não é disso que ela se queixa. Esta rotina, por sinal, não difere muito daquela de outras camponesas ao redor do planeta, como, por exemplo, da rotina daquelas que labutam no campo no nordeste brasileiro.
Porém, é sua servidão moral que mais a maltrata. Desde o nascimento é humilhada, injuriada e rejeitada pelo fato de ser mulher. Torna-se moeda de troca entre as famílias do clã, sem jamais ser consultada sobre suas preferências. Quando casa, o marido não se digna sequer a partilhar com ela das refeições que prepara.
Os filhos homens, geralmente produto de um casamento forçado, assistem à humilhação a que é submetida a mãe e muito cedo começam também a humilha-la e agredi-la fisicamente, até. Este comportamento é uma espécie de iniciação à vida adulta. A tudo isso o pai assiste complacente. (ibid, p. 25)
É dentro deste contexto de aparente submissão e revolta permanente que os landays femininos são compostos e é isso mesmo que esta poesia retrata. Como é tolhida na sua escolha de um marido, a mulher afegã expressa nos landays seu desprezo e ódio pelo marido que lhe é imputado, invariavelmente uma criança imberbe ou um velho. Estas duas injustas opções estão bem claras nos poemas abaixo:

O destino deu-me por esposo uma criança que eu educo
Mas quando ele for grande e forte, eu já serei velha e fraca

Ó meu Deus, de novo ela está aí, a noite longa e triste
E de novo ele está aí, o meu “pirralho horrível” e dorme...

Dizem-me que os “horríveis pirralhos” fugiram da face da terra
O meu está bem vivo e atormenta-me sempre

E
           
Gente cruel que vedes um velho me levar para a sua cama
            E perguntais-me porque choro e me arranco os cabelos

            Contudo, nem toda a opressão consegue calar a “voz secreta” da mulher afegã, que, mesmo correndo riscos,  revela seu desprezo e ódio pelos maridos que lhe são impostos:

            Ó “horrível pirralho” um sono eterno!
            Qualquer gatito o desperta e espia-me sem parar

            Ó Deus, leva este velho esposo
            Que à noite me vigia e de dia dorme

            Que este rochedo me esmague com seu peso
Mas que jamais me toque a mão de um marido velho

            A situação de permanente insatisfação e opressão gera uma atitude totalmente surpreendente: nos landays, a mulher afegã não revela qualquer tipo de culpa por tomar um amante que satisfaz seus desejos e com quem desfruta os prazeres do amor. Pelo contrário, o adultério é para ela uma compensação, uma catarse pelos sofrimentos que lhe são imputados:

Apressa-te, meu amor, se quiseres admirar-me
O “horrível pirralho” já prepara o barro para tapar o muro

Como vieste assim em plena lua cheia?
Tu, alto como um plátano, onde te esconderei?
Vem, amor, deixa-me abraçar-te
Eu sou a frágil hera que o Outono em breve levará

Oxalá ele seja convidado para a nossa casa
Eu lhe darei a provar a ponta dos meus lábios cor-de-rosa

Meu amor, vem depressa contentá-lo
O alazão do meu coração rompeu todos os freios.

O meu amante é um colar ao meu pescoço
Posso andar nua, mas sem colar, nunca!

Ó Deus, então é pecado?
Criaste o jardim deste mundo e eu colhi a flor de que mais gostei

Após a invasão soviética e, posteriormente, com a instalação do regime fundamentalista islâmico, grande parte da população afegã teve de se exilar, dentre estes, o próprio Bahodine. A experiência cruel do exílio e da guerra passa então a figurar como tema dos landays:

Ó grande Deus dos exilados
Quanto durará a vida nestas planícies áridas?

Pelo meu rosto rolam lágrimas
Não posso esquecer as montanhas de Kabul com seus cimos nevados

Tenho na mão uma flor que murcha
Não sei a quem a dar nesta terra estrangeira

Ó Deus, não deixes morrer uma mulher no exílio!
Com o derradeiro sopro poderá esquecer o teu nome  mas a sua terra natal,
                                                                                                                   não

Contudo, mesmo em meio às agruras do exílio, as inquietações amorosas não cessam:

Pus-me bonita com os meus vestidos usados
Como um jardim florido numa aldeia em ruínas

O meu amante é hindu e eu maometana
Em nome do amor, varro os degraus do templo interdito

Pulseiras nos meus braços, um colar no pescoço
Parto com o meu bem-amado, regressamos à nossa terra.

É interessante observar que imagens eternas da poesia ocidental também podem ser ecoadas pelos landays das mulheres afegãs. Refiro-me aqui à inquietação dos amantes diante das vozes dos pássaros que anunciam a manhã, que chega para separá-los. Leitores de Shakespeare não deixarão de evocar a famosa cena de Romeu e Julieta que faz alusão ao rouxinol e à cotovia. Não desejo aqui sugerir qualquer influência do poeta inglês sobre as poetisas afegãs, apenas sublinhar a universalidade de alguns temas poéticos: 

Já o galo canta a alba
Quando havia ainda tanto para dizer, tantos desejos  a saciar

Ó galo maldito, queria degolar-te!
Se não tivesses cantado, o meu amante estaria ainda nos meus braços

Além desses temas existe anda a preocupação com a morte iminente, com a perda do amado ou do filho em combate, mas pairando acima da dor por essas perdas, está a preocupação com o heroísmo e com a honra:

Que poderás tu fazer senão bater-te?
Submisso não serias mais que escravo de um escravo

Um mártir é como um relâmpago que brilha e depois se extingue
O que morre em casa só estraga as camas

Para ti, a poeira, mas nunca mais a minha boca:
Escondeste-te quando os homens partiram para o combate

Vai combater a Kabul meu amor
Para ti guardarei intactos o meu corpo e a minha boca

Filho, se desertares da nossa guerra
Eu amaldiçoarei até o leite dos meus peitos

Os heróis permanecem vivos
Só os traidores perecem para sempre

Para ti, a minha boca inteira
Só a darei ao guerreiro vencedor!

E este poema hamletiano:

Se a hora não chegou, a morte não virá.
Mesmo que o mundo arda, amor, não tenhas medo


Através destes poemas podemos então discernir as atitudes das mulheres afegãs de ontem e de hoje perante os dramas eternos que afligem o seu gênero e, também, o seu povo através dos tempos. Nisto, estes poemas não são muito diferentes daqueles sobre os quais se debruça Ria Lemaire (1990. pp13-26), no seu ensaio intitulado “A canção de Malmaridada”, no qual ela analisa a representação do casamento na poesia popular (grifo da autora), ao mesmo tempo em que demonstra como se desenvolveram os novos códigos de comportamento amoroso entre homens e mulheres, através dos séculos, e consequentemente, as relações de poder entre os sexos, no decorrer dos séculos, na Europa, até a chegada do casamento moderno monogâmico a partir do século XI. Antes disso, diz a autora, “vários tipos de casamento coexistiram no mundo indo-europeu” (p.15).
“O tema da canção da malmaridada é o da infelicidade da mulher malcasada e das emoções provocadas por essa situação triste.” (p.16) Ria Lemaire distingue 4 tipos de cantigas:
1.    as cantigas cantadas pelas próprias malcasadas, predominantemente líricas;
2.    as canções cantadas por homens: predominantemente narrativas;
3.    canções religiosas;
4.    cantigas de ninar.

Este gênero literário, ainda segundo Ria, que pode ser encontrado desde os primeiros manuscritos medievais, desapareceu com o fim da Idade Média e só sobreviveu na tradição oral.
Para efeito de comparação com os landays afegãos ressaltaremos apenas o primeiro tipo dessas canções medievais. “a malmaridada anônima cantada por mulheres”. Predominantemente lírica, cantada por voz solo dialogando com um coro de mulheres. São canções de dança, compostas originalmente por mulheres, para serem cantadas para e com outras mulheres. Nessas canções há três actantes:

1.    o marido ruim, feio, velho, ciumento, que maltrata a mulher
2.    a mulher, geralmente mais jovem
3.    o namorado/amante escolhido com o qual ela sonha.

O comportamento da malmaridada expresso nas canções do primeiro tipo é sempre assim: se você for malmaridada, não fique em casa chorando, revolte-se contra o marido ruim. Fale, cante com as outras mulheres, vá ao ar livre, escolha um amante e seja ativa, como ele, no amor. (p.18)

Nos exemplos que se seguem, podemos constatar a semelhança de atitude entre as malmaridadas e as afegãs, ambas vítimas de casamentos desiguais, forçados e sem amor:

1.    I hope God will not give me the desire
To love my husband
As long as I have a lover
As I have chosen him
Gallant, brave and handsome
Sociable, courteous and wise
But my husband enrages
Knowing his damage
And he wants to know
To whom I have promised my love
I have answered:
      You villain, with your foolish face
      You will not know today
      Whose lover I am.

2.    That’s how a married woman must go to her lover
That’s how a handsome married woman goes to her friend
 It’s very annoying, my dear sister
When the jealous husband assaults me in bed
Then I would prefer to be outside
In the meadow, the wood or the forest
With the man who always
Served me and loved me.

Embora não encontremos nesses poemas o mesmo tom trágico, nem a urgência contidos nos landays, há alguns elementos como a impaciência e o desprezo pelo marido ciumento e tolo e a mesma preferência pelo amante, que é belo, cortês e sábio, que podem ser igualmente encontrados nas malmaridadas e nos landays.
           
            Este breve estudo nos mostra elementos de confluência entre mulheres de tempos e regiões distantes e distintas no tempo, espaço e momento histórico, o que nos leva a concluir que a opressão sempre conduz à revolta e à subversão. Quanto maior a tirania, maior é o desejo de compensação e vingança e isto é igualmente verdadeiro em se tratando de gêneros ou de povos. No entanto, mesmo lamentando que seres humanos sejam submetidos a condições tão injustas, temos a celebrar o legado artístico que tais situações invariavelmente nos legam.


REFERÊNCIAS
HOSSEINI, Khaled. A cidade do sol. Trad. Maria Helena Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
________________ . O caçador de pipas. Trad. Maria Helena Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, 2006.
LEMAIRE, Ria. “A canção de Malmaridada” in A mulher na Literatura vol II, org. Nádia Battella Gotlib, Belo Horizonte, Imprensa da Universidade Federal de Minas Gerais, 1990.
LOGAN, Harriet. Mulheres de Cabul. Trad. Celeste Marcondes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
MAJROUH, Sayd Bahodine. A voz secreta das mulheres afegãs: o suicídio e o canto.  Versão de Ana Hatherly. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2005.
RAHIMI, Atiq. Syngué sabour. Pedra-de-paciência. Trad. Flávia Nascimento. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.
SEIERSTAD, Asne. O livreiro de Cabul. Trad. Grete Skevik. Rio de Janeiro: Record, 2006.



[1] Mestre em Estudos Shakespeareanos pela Birmingham University, Inglatera.

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