“Fomos
esquecidas e precisamos ter o direito de falar.
Se ninguém
escutar o que dissermos, nada mudará.”
(Mulheres de Cabul)
Maria das
Vitórias de Lima Rocha, UEPB[1]
O
Oriente sempre representou um mundo de sonho, riqueza, erotismo e fantasia para
os povos do Ocidente. Inicialmente, por ser o lugar de onde vinham as especiarias,
sedas, perfumes, tudo que o Ocidente consumia (e não produzia) com avidez e
encantamento. A literatura foi a grande responsável pela disseminação dos
costumes, lendas e tradições orientais. E nenhum outro livro despertou mais a
curiosidade ocidental do que As mil e uma
noites, também conhecido como Arabian
Nights, uma coleção de contos que reúne cultura, aventura, e fantasia, hoje,
definitivamente entronizado no panteão da literatura universal como um dos
clássicos da humanidade. O fio condutor que dá unidade à narrativa provém da
voz da princesa Xerazade, a filha do vizir. Este fio condutor é de origem
indiana e chegou aos árabes através dos persas. Os contos que compõem a coletânea
tem elementos diversos: árabes, persas e indostânicos. Embora de autoria desconhecida,
supõe-se que tenha aparecido pela primeira vez em língua árabe no século VII. Em
1853 foi impressa na forma árabe definitiva. Entre 1704 e 1712 apareceu na
Europa, na tradução francesa de Antoine Galland (Les Mille et une nuits). Na metade do século XIX foi publicada no
Cairo uma versão que serviu de base para edições posteriores, inclusive a
inglesa, Thousand and One Nights (1885-1888)
de Sir Richard Burton. Sem finalidade moralizadora, religiosa ou didática, que
predomina na literatura oriental, contém no seu cerne um elemento que perdura
até os nossos dias: a xenofobia, o repúdio ao feminino, considerado traiçoeiro e
subversivo, merecendo, portanto, as mais duras penas. Embora Xerazade sobreviva
à ameaça de morte que pesa sobre sua cabeça, através de sua inteligência e
criatividade, o mesmo não acontece com a maioria das mulheres que hoje ousam
subverter a ordem estabelecida pelos textos corânicos e os editos que dali se
originam. É isto que nos mostra a literatura contemporânea que nos chega dos
países que adotam o islamismo de uma forma fundamentalista, como religião e
modo de viver, dentre estes, o Afeganistão, objeto de nosso olhar neste
trabalho.
Antes
do 11 de setembro de 2001, o Afeganistão representava pouco mais do que um país
escondido nas regiões montanhosas da Ásia Meridional, limitando-se com países
como o Paquistão, o Irã, e a China, dentre outros.
Poucos
sabem, por exemplo, que entre 2000 e 1500 A .C. aquele país já fazia parte da rota de
passagem das tribos indo-européias; que do século V ao IV A.C. o Afeganistão
fez parte do império persa; que em 329 A .C. Alexandre conquistou várias cidades
que podem ter originado as que hoje são conhecidas como Kandahar e Cabul; que
de 250 até 125 A .C.
ali instalou-se um reinado culturalmente florescente, a afirmação de uma
civilização greco-búdica, resultado de influências helênicas e indianas. Os árabes conquistaram a região no século VII
e encontraram alguma resistência à implantação do islamismo que será imposto
definitivamente a partir da primeira metade do século VIII. Ainda foi
invadida pelos turcos e pelos mongóis. Com a descoberta do caminho marítimo para
a Índia, a rota da seda deixou de ter a importância que tinha até então e desde
aí o grupo étnico dos pachtu começou a ganhar
ascendência sobre as outras etnias.
No
século XIX, são os ingleses que ocupam a região, de (1830 a 1919), tendo que
disputar a soberania sobre aquele vasto território com o Império Russo.
Em
1964 o Afeganistão adotou a sua constituição e
estabeleceu o regime parlamentar. Desde 1970,
vem enfrentando uma guerra civil contínua e brutal sempre com intervenções
estrangeiras; em 1973, dando seqüência a uma grande crise econômica, um golpe
militar é armado e a república é proclamada. Adota uma política de aproximação
dos países muçulmanos, principalmente da Arábia Saudita, o que não agrada à
União Soviética, que invade o país em 1979, tomando o controle das principais
cidades. Os soviéticos são forçados a retirar-se 10 anos mais tarde e os
mujahidins, que são supridos de armas e treinados pelos Estados Unidos, Arábia
Saudita, Paquistão, China e outros países da região assumem o poder. Em 1996, o
Taliban (milícia sunita de etnia patane, a mais numerosa do país) assume o
poder, instaurando um regime fundamentalista islâmico. Depois do ataque às
Torres Gêmeas, (World Trade Center) os Estados Unidos e as forças aliadas deram
início a uma campanha militar que tem por objetivo dizimar os Talibans e o
saudita Osama bin Laden, supostamente refugiado nas montanhas afegãs.
Este
breve e lacunoso registro tem apenas o objetivo de chamar a atenção para o fato
de que muita coisa aconteceu, muitas vidas foram sacrificadas no Afeganistão,
antes dos atentados às Torres Gêmeas de New York em 11 de setembro de 2001.
Mas, a partir de então, o ocidente foi forçado a voltar os olhos para aquele
povo longínquo, assolado por invasões e guerras fratricidas, através da
enxurrada de best-sellers que, de uma forma ou de outra, nos atualizou a
respeito da tragédia permanente que tem sido o cotidiano do povo afegão, nos
últimos 50 anos. Apenas para citar alguns desses best-sellers, selecionei os títulos que figuraram (alguns ainda figuram) nas
nossas listas dos mais vendidos por semanas e meses consecutivos. Inicialmente,
tivemos O livreiro de Cabul, da
jornalista norueguesa Asne Seierstad, publicado originalmente em 2002, com edição
brasileira de 2006. Na esteira deste livro, em 2002, veio Mulheres de Cabul, uma seleção
de fotos e depoimentos sobre a vida das mulheres do Afeganistão, publicado
no Brasil em 2006. Em seguida tivemos O caçador de pipas de Khaled Hosseini,
que arrancou lágrimas de multidões de leitores e, mais tarde, de cinéfilos
enternecidos com o drama dos dois meninos pashtun e hazara, originalmente
publicado em 2003 e, aqui no Brasil em 2006. Ainda de Khaled Hosseini, A cidade do sol, publicado no mesmo ano
(2007) nos Estados Unidos e no Brasil, o que comprova a popularidade do autor e
do gênero literário. Desta feita o foco é concentrado na opressão que sofrem as
mulheres afegãs sob o regime dos Talibans.
Mais
recentemente, Atiq Rahimi, escritor franco-afegão, foi premiado com o Goncourt
em 2008 pela publicação do livro Syngué
Sabour, lançado no Brasil em
2009, com o subtítulo Pedra-de-paciência.
Rahimi declara que “esta narrativa foi escrita em memória de N.A. (Nadia
Anjuman) – a poetisa afegã barbaramente assassinada por seu marido”. Este é o
terceiro livro de Rahimi editado no Brasil. Sua narradora sem nome é uma
antítese da princesa Xerazade: ao narrar sua história, ao invés de conquistar o
direito de viver, é assassinada pelo marido, que estivera ferido, imóvel,
semi-morto durante toda a sua narrativa. Tal qual um Lázaro, recobra a vida,
mas “vinga-se” da mulher que o mantivera limpo e alimentado através de seus
cuidados por longos dias, cujo pecado maior fora submetê-lo a ouvir sua
história pessoal; ele que nunca se dignara a escutá-la, ouve um relato que a
condena irremediavelmente, pelo que contém de verdadeiro e subversivo. Os dois
primeiros livros de Rahimi aqui publicados são Terra e cinzas (2002), As mil
casas do sonho e do terror (2003).
Podemos
observar através desta pequena amostra o quanto as questões referentes ao
Afeganistão passaram a figurar de forma proeminente no mercado editorial
ocidental.
Last, but not least,
um último livro (objeto deste estudo) A
voz secreta das mulheres afegãs: o suicídio e o canto, do poeta afegão Sayd
Bahodine Majrouh, que nos chega através da tradução inspirada da poetisa
portuguesa Ana Hatherly. Foi originalmente publicado
em francês em 1994 pela Gallimard e, em 2005, pela Editora Cavalo de Ferro de
Lisboa. Bahodine coletou os poemas, nos vales pashtun, acompanhado pela sua irmã,
conforme revelou a uma numerosa e ao mesmo tempo amistosa audiência, da qual
fazia parte André Velter (2005, p.76). Alguns
destes poemas estão incluídos no pequeno volume de apenas 88 páginas, para a
qual Bahodine também escreveu a introdução e os capítulos de apresentação às
quatro partes que compõem este formoso livro.
Graduado
em Universidades européias, ao voltar para seu país, ocupou vários cargos e
funções: professor universitário, chefe de departamento, governador de província,
embaixador, dentre outros. Era particularmente ligado na “violência da vida,
nas dívidas de honra, nas vendettas e
no calvário das mulheres” (VELTER, ibid). Pouco tempo após esse encontro de
amigos, aos quais Bahodine apresentou os landays,
deu-se o golpe de estado comunista que o forçou a se exilar em Peshawar, no
Paquistão, onde foi assassinado, em 11 de fevereiro de 1988. Nas palavras
emocionadas de Velter, Bahodine
“Morreu por ter falado
abertamente. Morreu sobretudo por ter escutado
e ter emprestado a sua voz aos sem-voz.
Majrouh não se assemelhava
em nada a um intelectual do antigo regime.
Mais propenso a escutar
as narrativas e os cantos de um nómada, de um
pastor de uma camponesa,
de um louco de Deus, que as perorações de um
ministro ou de um teólogo,
aplicava a sua erudição sem preconceito ao
questionamento tácito da sua
própria tradição” (ibid, p.81)
Landay
significa literalmente “o breve”. Um landay,
Bahodine nos explica, (ibid, p. 12) é exatamente isso: um poema curto de dois
versos livres de nove e treze sílabas, sem rimas, mas com escansões internas. É
vocalizado de formas diferentes, dependendo da região de onde se origina e é
usado para pontuar discussões, como um aforismo, um ditado. São inseparáveis do
canto e têm grande ritmo melódico. Sendo curtos, são facilmente memorizados.
Fazendo parte da tradição oral, são também anônimos.
Quanto
ao conteúdo, não exaltam o amor místico nem o louvor a Deus. Também não contém
referências ao efebo, objeto do amor homossexual. É mais um canto de amor
terrestre, suas belezas, prazeres, alegrias; celebra a natureza, seus rios,
cascatas, montanhas, vales, flores, o nascer e o por do sol e também a morte, a
honra, a guerra, a vergonha.
O
grande diferencial desta poesia é a presença ativa da mulher, não como na
poesia lírica ocidental, desempenhando o papel de musa, mas como criadora ativa,
como sujeito do seu canto.
Há
também os landays eruditos compostos
pelos clérigos e os letrados, mas esses raramente atingem a vitalidade dos landays femininos. O que emerge destes
é um rosto, um corpo feminino que se rebela e debate contra a opressão constringente.
É sabido que a estrutura tribal da comunidade pashtun é particularmente dura e
virilizada. Dentro deste contexto, a mulher sofre duplamente: tanto física como
moralmente.
Sua
carga doméstica é particularmente pesada, trabalha de manhã á noite, vai buscar
água na fonte ou no rio, cuida dos filhos, cozinha, cuida dos animais, cose a roupa da família, irriga as culturas, mas não é
disso que ela se queixa. Esta rotina, por sinal, não difere muito daquela de
outras camponesas ao redor do planeta, como, por exemplo, da rotina daquelas
que labutam no campo no nordeste brasileiro.
Porém,
é sua servidão moral que mais a maltrata. Desde
o nascimento é humilhada, injuriada e rejeitada pelo fato de ser mulher.
Torna-se moeda de troca entre as famílias do clã, sem jamais ser consultada
sobre suas preferências. Quando casa, o marido não se digna sequer a partilhar
com ela das refeições que prepara.
Os
filhos homens, geralmente produto de um casamento forçado, assistem à
humilhação a que é submetida a mãe e muito cedo começam também a humilha-la e
agredi-la fisicamente, até. Este comportamento é uma espécie de iniciação à
vida adulta. A tudo isso o pai assiste complacente. (ibid, p. 25)
É
dentro deste contexto de aparente submissão e revolta permanente que os landays femininos são compostos e é
isso mesmo que esta poesia retrata. Como é tolhida na sua escolha de um marido,
a mulher afegã expressa nos landays
seu desprezo e ódio pelo marido que lhe é imputado, invariavelmente uma criança
imberbe ou um velho. Estas duas injustas opções estão bem claras nos poemas
abaixo:
O
destino deu-me por esposo uma criança que eu educo
Mas
quando ele for grande e forte, eu já serei velha e fraca
Ó
meu Deus, de novo ela está aí, a noite longa e triste
E
de novo ele está aí, o meu “pirralho horrível” e dorme...
Dizem-me
que os “horríveis pirralhos” fugiram da face da terra
O
meu está bem vivo e atormenta-me sempre
E
Gente
cruel que vedes um velho me levar para a sua cama
E perguntais-me porque choro e me arranco os cabelos
Contudo, nem toda a opressão consegue calar a “voz
secreta” da mulher afegã, que, mesmo correndo riscos, revela seu desprezo e ódio pelos maridos que lhe
são impostos:
Ó “horrível pirralho” um sono eterno!
Qualquer gatito o desperta e espia-me sem parar
Ó Deus, leva este velho esposo
Que à noite me vigia e de dia dorme
Que este rochedo me esmague com seu peso
Mas
que jamais me toque a mão de um marido velho
A situação de permanente insatisfação e opressão gera uma
atitude totalmente surpreendente: nos landays,
a mulher afegã não revela qualquer tipo de culpa por tomar um amante que
satisfaz seus desejos e com quem desfruta os prazeres do amor. Pelo contrário,
o adultério é para ela uma compensação, uma catarse pelos sofrimentos que lhe
são imputados:
Apressa-te,
meu amor, se quiseres admirar-me
O
“horrível pirralho” já prepara o barro para tapar o muro
Como
vieste assim em plena lua cheia?
Tu,
alto como um plátano, onde te esconderei?
Vem,
amor, deixa-me abraçar-te
Eu
sou a frágil hera que o Outono em breve levará
Oxalá
ele seja convidado para a nossa casa
Eu
lhe darei a provar a ponta dos meus lábios cor-de-rosa
Meu
amor, vem depressa contentá-lo
O
alazão do meu coração rompeu todos os freios.
O
meu amante é um colar ao meu pescoço
Posso
andar nua, mas sem colar, nunca!
Ó
Deus, então é pecado?
Criaste
o jardim deste mundo e eu colhi a flor de que mais gostei
Após
a invasão soviética e, posteriormente, com a instalação do regime
fundamentalista islâmico, grande parte da população afegã teve de se exilar,
dentre estes, o próprio Bahodine. A experiência cruel do exílio e da guerra
passa então a figurar como tema dos landays:
Ó
grande Deus dos exilados
Quanto
durará a vida nestas planícies áridas?
Pelo
meu rosto rolam lágrimas
Não
posso esquecer as montanhas de Kabul com seus cimos nevados
Tenho
na mão uma flor que murcha
Não
sei a quem a dar nesta terra estrangeira
Ó
Deus, não deixes morrer uma mulher no exílio!
Com o derradeiro sopro
poderá esquecer o teu nome mas a sua
terra natal,
não
Contudo,
mesmo em meio às agruras do exílio, as inquietações amorosas não cessam:
Pus-me
bonita com os meus vestidos usados
Como
um jardim florido numa aldeia em ruínas
O
meu amante é hindu e eu maometana
Em
nome do amor, varro os degraus do templo interdito
Pulseiras
nos meus braços, um colar no pescoço
Parto
com o meu bem-amado, regressamos à nossa terra.
É
interessante observar que imagens eternas da poesia ocidental também podem ser ecoadas
pelos landays das mulheres afegãs.
Refiro-me aqui à inquietação dos amantes diante das vozes dos pássaros que
anunciam a manhã, que chega para separá-los. Leitores de Shakespeare não
deixarão de evocar a famosa cena de Romeu
e Julieta que faz alusão ao rouxinol e à cotovia. Não desejo aqui sugerir
qualquer influência do poeta inglês sobre as poetisas afegãs, apenas sublinhar
a universalidade de alguns temas poéticos:
Já
o galo canta a alba
Quando
havia ainda tanto para dizer, tantos desejos
a saciar
Ó
galo maldito, queria degolar-te!
Se
não tivesses cantado, o meu amante estaria ainda nos meus braços
Além
desses temas existe anda a preocupação com a morte iminente, com a perda do
amado ou do filho em combate, mas pairando acima da dor por essas perdas, está
a preocupação com o heroísmo e com a honra:
Que
poderás tu fazer senão bater-te?
Submisso
não serias mais que escravo de um escravo
Um
mártir é como um relâmpago que brilha e depois se extingue
O
que morre em casa só estraga as camas
Para
ti, a poeira, mas nunca mais a minha boca:
Escondeste-te
quando os homens partiram para o combate
Vai
combater a Kabul meu amor
Para
ti guardarei intactos o meu corpo e a minha boca
Filho,
se desertares da nossa guerra
Eu
amaldiçoarei até o leite dos meus peitos
Os
heróis permanecem vivos
Só
os traidores perecem para sempre
Para
ti, a minha boca inteira
Só
a darei ao guerreiro vencedor!
E este poema
hamletiano:
Se
a hora não chegou, a morte não virá.
Mesmo
que o mundo arda, amor, não tenhas medo
Através
destes poemas podemos então discernir as atitudes das mulheres afegãs de ontem
e de hoje perante os dramas eternos que afligem o seu gênero e, também, o seu
povo através dos tempos. Nisto, estes poemas não são muito diferentes daqueles sobre
os quais se debruça Ria Lemaire (1990. pp13-26), no seu ensaio intitulado “A
canção de Malmaridada”, no qual ela analisa a representação do casamento na
poesia popular (grifo da autora), ao
mesmo tempo em que demonstra como se desenvolveram os novos códigos de
comportamento amoroso entre homens e mulheres, através dos séculos, e
consequentemente, as relações de poder entre os sexos, no decorrer dos séculos,
na Europa, até a chegada do casamento
moderno monogâmico a partir do século XI. Antes disso, diz a autora,
“vários tipos de casamento coexistiram no mundo indo-europeu” (p.15).
“O
tema da canção da malmaridada é o da infelicidade da mulher malcasada e das
emoções provocadas por essa situação triste.” (p.16) Ria Lemaire distingue 4
tipos de cantigas:
1. as
cantigas cantadas pelas próprias malcasadas, predominantemente líricas;
2. as
canções cantadas por homens: predominantemente narrativas;
3. canções
religiosas;
4. cantigas
de ninar.
Este
gênero literário, ainda segundo Ria, que pode ser encontrado desde os primeiros
manuscritos medievais, desapareceu com o fim da Idade Média e só sobreviveu na
tradição oral.
Para
efeito de comparação com os landays afegãos
ressaltaremos apenas o primeiro tipo dessas canções medievais. “a malmaridada
anônima cantada por mulheres”. Predominantemente lírica, cantada por voz solo
dialogando com um coro de mulheres. São canções de dança, compostas
originalmente por mulheres, para serem cantadas para e com outras mulheres.
Nessas canções há três actantes:
1. o
marido ruim, feio, velho, ciumento, que maltrata a mulher
2. a
mulher, geralmente mais jovem
3. o
namorado/amante escolhido com o qual ela sonha.
O
comportamento da malmaridada expresso nas canções do primeiro tipo é sempre
assim: se você for malmaridada, não fique em casa chorando, revolte-se contra o
marido ruim. Fale, cante com as outras mulheres, vá ao ar livre, escolha um
amante e seja ativa, como ele, no amor. (p.18)
Nos
exemplos que se seguem, podemos constatar a semelhança de atitude entre as
malmaridadas e as afegãs, ambas vítimas de casamentos desiguais, forçados e sem
amor:
1.
I hope God will not give me the desire
To love my
husband
As long as I
have a lover
As I have
chosen him
Gallant,
brave and handsome
Sociable,
courteous and wise
But my
husband enrages
Knowing his
damage
And he wants
to know
To whom I
have promised my love
I have
answered:
You villain, with your foolish face
You will not know today
Whose lover I am.
2.
That’s how a married woman must go to her lover
That’s how a
handsome married woman goes to her friend
It’s very annoying, my dear sister
When the
jealous husband assaults me in bed
Then I would
prefer to be outside
In the
meadow, the wood or the forest
With the man
who always
Served me
and loved me.
Embora
não encontremos nesses poemas o mesmo tom trágico, nem a urgência contidos nos landays, há alguns elementos como a
impaciência e o desprezo pelo marido ciumento e tolo e a mesma preferência pelo
amante, que é belo, cortês e sábio, que podem ser igualmente encontrados nas
malmaridadas e nos landays.
Este breve estudo nos mostra elementos de confluência
entre mulheres de tempos e regiões distantes e distintas no tempo, espaço e
momento histórico, o que nos leva a concluir que a opressão sempre conduz à
revolta e à subversão. Quanto maior a tirania, maior é o desejo de compensação
e vingança e isto é igualmente verdadeiro em se tratando de gêneros ou de
povos. No entanto, mesmo lamentando que seres humanos sejam submetidos a
condições tão injustas, temos a celebrar o legado artístico que tais situações
invariavelmente nos legam.
REFERÊNCIAS
HOSSEINI, Khaled. A cidade do sol. Trad. Maria Helena
Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
________________ . O caçador de pipas. Trad. Maria Helena
Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, 2006.
LEMAIRE, Ria. “A canção
de Malmaridada” in A mulher na Literatura
vol II, org. Nádia Battella Gotlib, Belo Horizonte, Imprensa da
Universidade Federal de Minas Gerais, 1990.
LOGAN, Harriet. Mulheres de Cabul. Trad. Celeste
Marcondes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
MAJROUH, Sayd Bahodine.
A voz secreta das mulheres afegãs: o
suicídio e o canto. Versão de Ana Hatherly.
Lisboa: Cavalo de Ferro, 2005.
RAHIMI, Atiq. Syngué sabour. Pedra-de-paciência. Trad.
Flávia Nascimento. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.
SEIERSTAD, Asne. O livreiro de Cabul. Trad. Grete Skevik.
Rio de Janeiro: Record, 2006.
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